A criação de tilápias em tanques-rede no reservatório da Usina de Itaipu, anunciada nesta semana pela direção da hidrelétrica, tem sido defendida como alternativa de desenvolvimento econômico, mas especialistas alertam para uma série de problemas ambientais, produtivos e econômicos que precisam ser considerados antes da expansão dessa atividade.
Como funciona a piscicultura em tanques-rede
O cultivo de peixes em tanques-rede se baseia na troca constante de água através das malhas, permitindo a estocagem de um grande número de peixes em espaços reduzidos. Esse sistema, no entanto, difere significativamente da piscicultura em açudes, onde há maior aproveitamento da produtividade natural do ambiente.
Nos tanques-rede, o aproveitamento de zooplâncton e fitoplâncton é mínimo, tornando obrigatória a utilização de 100% de ração industrializada para alimentação dos peixes.
Aumento dos custos e redução da margem de lucro
A alta densidade de peixes e o uso exclusivo de rações balanceadas elevam de forma significativa os custos de produção, reduzindo a margem de lucro do produtor. Embora a grande escala de produção possa compensar parcialmente esse cenário, o risco financeiro permanece elevado, especialmente em situações de mortalidade ou problemas operacionais.
Risco de fuga de peixes e impacto ambiental
Outro fator crítico é a fuga de exemplares, comum em casos de danos nas telas dos tanques-rede. No reservatório de Itaipu, esse risco é agravado pela presença do mexilhão-dourado, espécie invasora que se fixa nas estruturas.
Sem revestimento anti-incrustante, o acúmulo de mexilhões pode:
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Aumentar excessivamente o peso dos tanques, levando ao afundamento;
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Entupir as malhas, reduzindo a circulação de água;
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Provocar queda nos níveis de oxigênio dissolvido, aumentando o risco de mortandade.
Capacidade de suporte do reservatório é limitada
Especialistas também questionam a capacidade real de suporte ambiental do reservatório. Enquanto estimativas oficiais já falaram em até 400 mil toneladas de produção, estudos técnicos publicados indicam que o limite sustentável estaria em torno de 15 mil toneladas.
Esse descompasso pode levar a impactos severos, como eutrofização da água e colapsos produtivos.
Piscicultura gera poucos empregos diretos
Outro argumento frequentemente usado é a geração de empregos. No entanto, a piscicultura em tanques-rede gera, em média, apenas um emprego direto para cada 80 a 100 toneladas de pescado produzido, número considerado baixo em relação ao impacto ambiental envolvido.
Mortalidade de peixes e risco iminente
À medida que os peixes se aproximam do ponto de abate, o consumo de oxigênio aumenta significativamente. Isso exige monitoramento constante e manejo rigoroso, pois qualquer erro pode resultar em mortalidade em massa.
Por isso, especialistas defendem que sejam analisados os casos de mortes de peixes em tanques-rede nos reservatórios do Rio Iguaçu, como forma de evitar que situações semelhantes ocorram no lago de Itaipu.
Planejamento é essencial para evitar danos irreversíveis
O cultivo de organismos aquáticos deve respeitar rigorosamente a capacidade de suporte do ambiente, considerando níveis naturais de fósforo, renovação da água e características de cada braço do reservatório. Em sistemas intensivos como os tanques-rede, não há margem para erros.









