Covid ninguém merece
*Por Carlos Galetti
Desde o começo da crise, lá trás em fevereiro, ouço a máxima, todos pegarão o covid num determinado momento. Confesso que isso me arrepiava, até sonhar com isso sonhava, ou melhor, tinha pesadelos.
Tenho o hábito de acordar cedo, ainda mais que tomo um remédio às 0630h.
Estava absorto em meus pensamentos, quando sou invadido nos pensamentos. Minha mulher entrava na cozinha, dizendo estar com o covid.
Até aí, tudo bem, mas insistia em afirmar que eu havia passado pra ela, ao que ainda retruquei, melhor que você tenha pego comigo que com o vizinho.
Baixou os tempos de loira, tentou compilar, não configurou.
Minha mulher gosta de ser coadjuvante; já, no momento seguinte, inicia seus planejamentos. Segunda todos vocês vão fazer os exames, precisamos ver quem está também. Mas você insiste que eu lhe transmiti.
Só chega perto da minha mãe de máscara. Vale aqui um adendo, minha sogra tem 92 anos.
Tirar a velhinha da cama, levar para o banheiro, fazer a faxina e levar para o sofá, onde ficará o resto da manhã é tarefa inglória. Agora, com todos os cuidados ainda.
Acabou de se sentar no sofá e observo que está suja de novo, levo-a de volta ao banheiro, nova faxina, leva de volta ao sofá. Está suja de novo, desanimo, minha mulher insiste em dizer que eu lhe transmiti o covid.
Minha sogra está suja de novo, tento levantá-la, tenho uma distensão no braço, ouço ao longe minha mulher dizer que lhe transmiti o covid.
Minha sogra já está no vaso novamente, estou trazendo-a de volta ao sofá, parece que agora vai dar certo. Minha mulher pergunta pela minha máscara, digo que tive distensão e não posso colocá-la.
Tudo escurece, ouço ao longe a voz da minha mulher, meu braço ainda dói. Minha sogra vê televisão, com ambos os olhos fechados. Vai dormir a manhã toda.
Acordei! Que pesadelo!
A mulher já acordou, vejo o relógio, 0630h, hora do remédio.
Estou tomando o remédio, minha mulher chega e fico em pânico, de novo não, ninguém merece.
*Carlos A. M. Galetti é coronel da reserva do Exército, foi comandante do 34o Batalhão de Infantaria Motorizado. Atualmente é empresário no ramo de segurança, sendo sócio proprietário do Grupo Iguasseg.
Vivendo em Foz já há mais de 20 anos, veio do Rio de Janeiro, sua terra natal, no ano de 1999, para assumir o comando do batalhão.









