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O estouro da boiada e outras “Memórias do 627”

As histórias a seguir foram relatadas durante uma tarde chuvosa de domingo, em um quarto de hospital.

Por Vinícius Ferreira
17 junho, 2024
| 3 minutos de leitura |
(Foto: Freepik/Ilustração)

(Foto: Freepik/Ilustração)

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Hospital é um local de silencio e de repouso, mas nesse ambiente de recuperação, boas conversas e lembranças ajudam a aliviar as horas de quem está internado. Pelo menos é assim que pensa Cotoco, o paciente do 627 que, na companhia de amigos e de familiares, aproveita para matar a saudade de outros tempos na fronteira.

No Velho Oeste, os fatos narrados a seguir poderiam até ser considerados reais nas conversas aleatórias entre vizinhos e amigos. Mas é bom sempre lembrar que pitadas de tempero deixam tudo mais interessante.

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O estouro da boiada – Entre 1959 e começo dos anos 60 a carne consumida em Foz era distribuída pelo abatedouro da cidade, que ficava na beira do rio Boicy, no Boicy. Os bois – sempre entre oito ou 10 animais – eram levados do segundo distrito (onde hoje fica o restaurante Boiadeiro, no Porto Belo) até o abatedouro, passando pela antiga CRU (avenida Paraná), e seguindo pela Santos Dumont, onde ficava o Hotel Lamarque.  A produção abastecia açougues, hotéis, pensões e restaurantes da cidade.

A boiada passava pelo centro por volta das 15h o que fazia com que as mães chamassem os filhos para dentro das casas, para evitar acidentes. Loira Grazi era uma dessas crianças e, segundo ela, o medo era que a boiada estourasse e que os vaqueiros tivessem  que seguir atrás dos animais fujões, montados nos próprios cavalos, como acontecia vez ou outra.

Assobiando um tango – Após mais uma checada da enfermeira, já familiarizada com as risadas, entraram em cenas as antigas brincadeiras com a turma do colégio.

Naquela época a meninada se divertia na rua e na escola. Brincar na região do estádio do ABC, falar das artes da turma de amigos, dos colégios Monsenhor Guilherme, Mitre e Jorge Schimmelpfeng, de pais, filhos e bastardos, e meninos e meninas assobiando um tango em uma brincadeira nada ortodoxa.

Gastronomia e moda – Ao longo da tarde, mais e mais nomes são citados. Pioneiros, pessoas conhecidas ou não, muitos que estão entre nós e outros que já partiram. Ô Joana!

Bate a fome e com ela a vontade de experimentar a comida da Dona Porota, que servia na própria pensão a melhor comida da cidade. A pensão ficava na região onde hoje estão a Prefeitura e a Marinha e tinha até lista de espera.

O bom gosto aliás também estava presente na moda da época, na qual as moças de famílias mais abastadas renovavam o guarda-roupa na boutique da dona Edith, que de acordo com Loira Grazi, era uma espécie de Glorinha Kalil da época. Outra opção era viajar até Posadas, comparada a Miami da época, ou ainda comprar tecidos finos na “loja do Hindu”, como era chamado o estabelecimento.

Cantoria – Montado no próprio cavalo, um dos pioneiros raiz entregava leite pela cidade. Ele estava sempre acompanhado do violão e da gaita de boca. Era comum ele cantar bonito, da mesma maneira que canta até hoje. Inclusive ele compartilhou recentemente um vídeo, no qual aparece cantando e tocando. Uma viagem no tempo.

A copa de 70 – Os jogos da Copa eram acompanhados no Cine Delfim, em Cascavel. Dessa vez, no dia do jogo do Brasil contra a Inglaterra, parte da turma não viajou e ficou pela cidade. No centro, em frente ao Bradesco, Cotoco avistou um fusca vermelho do qual se ouvia música alta que embalava duas mulheres que estavam dançando de biquini no meio da rua. Elas estavam acompanhadas de dois homens, jogadores de futebol, que passaram uma semana na fronteira. Depois a dupla deixou a cidade, a conta do hotel e as moças. Uma delas acabou casando e permaneceu na cidade.

Cadê o sapato? – Essa é a história do camarada todo certinho, casado e feliz. A mulher dele viaja e o deixa na cidade, de carro e solteiro. Depois de alguns dias a sogra liga e pede para ele ir buscá-la na rodoviária. Quando estão voltando para casa, ele percebe um pé de sapato dentro do carro e disfarçadamente joga o calçado fora.

Quando chegam à casa dele, a sogra pergunta pelo sapato que ela tinha retirado para descansar. Voltaram para a rodoviária, mas o genro fez outro caminho, justamente para não encontrar mais o dito cujo.

E a tarde passou assim, pulando de um assunto para outro, de uma história para outra, sempre com muitas risadas.

Tina Breda

(Memórias do 627 é uma obra de ficção baseada em fatos quase reais)

Tags: CrônicasQuatro respostas
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