Caminhada Musical

Enquanto vejo aquele grupo que passa, assobio uma música do Cartola, se bem me lembro fala sobre Rosas que não falam

Foto ilustrativa: Pixabay

Caminhada Musical

*Por Carlos Galetti

Entro no compasso do piano que toca, pelas mãos de Jobim, os passos inebriantes da Garota de Ipanema. Sigo aquele rebolado compassado e me deparo com os quatro, aqueles do MPB4 que, com o Quarteto em Si, defendem com maestria as notas do Salve! Como é que vai?

Enquanto vejo aquele grupo que passa, assobio uma música do Cartola, se bem me lembro fala sobre Rosas que não falam, mas até poderiam fazê-lo, pois diante do impossível a arte se arvora, fazendo coisas duvidosas e surpreendentes.

Por estar deveras cansado da caminhada empreendida, resolvo parar e pedir um chope gelado no Bar Gafieira, ponto de concentração de nomes de destaque no cancioneiro carioca. Chego ainda a tempo de ouvir o sujeito dizer: – Seu Garçom faça o favor de me trazer depressa uma média que não seja requentada…

Aquele diálogo sumiu no tempo, dando lugar a música que dois amigos levavam ao lado, dizia sobre andar devagar, porque já teve pressa, sobre levar um sorriso porque já chorou demais, coisa linda de se ouvir. Pude ouvir que a letra e música brotaram numa forma tão espontânea que, quando viram já estava pronta, ao que o outro respondeu que sempre esteve pronta, era só botar no papel e na partitura.

Tomei dois chopes, resolvo continuar a caminhada, seguindo nem sei pra onde, mas seguindo. Novamente sou embalado pela música do pensamento, falando ao meu ouvido que na Beira do Mar todo mundo brinca, que na beira do mar nego deita e rola, então voltemos para a beira do mar.

Agora, caminhando na beira da praia, posso observar que as pessoas ficam em frenesi, suas alegrias são acentuadas, seus comportamentos distintos, afinal é domingo. Domingo de sol, ondas espetaculares, biquinis “cavadões”, olhares sinuosos e mal-intencionados, mas já que tudo se permite, pois é domingo, tudo vale a pena, pois a alma não é pequena.

Ao longe um surdo marca um compasso, dando a impressão de que um grande samba será entoado, falando sobre os Sertões Veredas, de Guimarães Rosas. Diz sobre o povo sofrido do Nordeste, povo marcado pela própria natureza; fala sobre tristeza, sofrimento, mas esperança.

Dou mais alguns passos e me sento para descansar ao lado da figura de Carlos Drummond de Andrade, mineiro ímpar, que adotou o Rio de Janeiro para morada.

Sentado ao seu lado pergunto: – E agora José, José para onde? A festa acabou e o sonho também, ficou sozinho, ficou sem ninguém, José para onde?…

Diante da resposta poética, plena de estrofes e metrificadas por rimas ricas, sigo meu caminho, mas com o dia ganho, pois não foi qualquer poeta que me inspirou. Agora um rock marca sua batida em minha cabeça, o tremendão, Erasmo Carlos, fala sobre temporadas de pássaros, passando sua mensagem com suavidade e emoção, para ele e pra eu.

Vou me despedindo ao som de outro poeta, Agepê, que me soa ao ouvido: – Acerta o passo no abraço que eu te dou, a vida inteira te esperei contente, dizendo ainda: – A semana eu criei sete domingos pra te namorar. Saudades desse tempo, saudades da namorada que ficou no tempo, que só revejo na música.

Inté mais!

*Carlos A. M. Galetti é coronel da reserva do Exército, foi comandante do 34o Batalhão de Infantaria Motorizado. Atualmente, é empresário no ramo de segurança, sendo sócio proprietário do Grupo Iguasseg. 

Vivendo em Foz já há mais de 20 anos, veio do Rio de Janeiro, sua terra natal, no ano de 1999, para assumir o comando do batalhão.

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